Guia da Afinni
Como transformar as respostas de um formulário num sociograma de turma, como ler o desenho e o que significam, ao certo, os números que a aplicação apresenta.
Começar
Dos dados em bruto ao primeiro desenho, em três passos.
O questionário
Um sociograma nasce de uma pergunta com um critério: «com quem gostarias de trabalhar em grupo?» é um critério, «quem convidarias para organizar um fim de semana?» é outro. O mesmo aluno pode ser muito procurado para trabalhar e pouco procurado para conviver — são coisas diferentes, e é por isso que vale a pena perguntar as duas.
Em cada critério pede-se um número fixo de opções por ordem de preferência, normalmente três. No Google Forms isso dá uma pergunta por opção, e a folha de respostas fica com cabeçalhos deste género:
| Pergunta | Cabeçalho na folha |
|---|---|
| Identificação | Nome do aluno |
| Critério 1 | Com quem gostarias de trabalhar em grupo? [1.ª opção] |
… [2.ª opção] · … [3.ª opção] | |
| Critério 2 | Quem convidarias para organizar um fim de semana? [1.ª opção] |
… [2.ª opção] · … [3.ª opção] | |
| Opcional | Género |
Antes de aplicar o questionário, diga à turma para que serve e o que vai acontecer aos dados. As respostas são confidenciais e o sociograma não se mostra aos alunos: é um instrumento de trabalho do professor.
Importar as respostas
No primeiro passo do painel da esquerda há dois caminhos.
Google Sheets
Cole o link da folha. Ela tem de estar acessível a quem tem o link: Partilhar → Acesso geral → Qualquer pessoa com o link → Visualizador, ou então Ficheiro → Partilhar → Publicar na Web. O servidor local da aplicação é que vai buscar os dados, porque o navegador sozinho é impedido de o fazer por motivos de segurança.
O campo «Folha dentro do ficheiro» só é preciso quando o documento tem vários separadores e as respostas não estão no primeiro. Escreva lá o nome do separador tal como aparece no Sheets.
Ficheiro
Aceita .csv, .tsv e .xlsx do
Excel, além dos projetos .nni gravados pela própria aplicação.
No Sheets: Ficheiro → Transferir e escolha CSV ou Excel. Se o livro
do Excel tiver várias folhas com dados, a aplicação usa a das respostas e
mostra um menu para trocar.
Se quiser ver a aplicação a funcionar antes de ter dados seus, carregue em «carregar turma de demonstração»: é uma turma fictícia de 24 alunos, com estrelas, alunos isolados, subgrupos e alguns erros de preenchimento propositados.
Correspondência de colunas
Assim que os dados entram, a aplicação tenta adivinhar o papel de cada coluna e abre o segundo passo para que confirme. Cada coluna pode ser:
- Nome do aluno — a identificação de quem respondeu. Só uma coluna.
- Género — opcional; se existir, os rapazes ficam com quadrados e as raparigas com círculos.
- Critério · n.ª opção — cada coluna de escolhas, com o critério a que pertence e a ordem de preferência.
- — ignorar — — tudo o resto, como o carimbo de data/hora.
Por baixo pode mudar o nome dos critérios: é esse nome que vai aparecer no menu do sociograma, na legenda e no cabeçalho da impressão.
A aplicação trabalha com qualquer número de critérios e de opções, de uma a cinco. Se marcar duas colunas com a mesma posição no mesmo critério, ela avisa.
Gerar o sociograma
O botão Gerar sociograma constrói o grafo. Nesse momento a aplicação resolve os nomes escritos pelos alunos, liga cada escolha ao colega certo, calcula as métricas e desenha.
Os dois primeiros passos recolhem-se e passa a ver o passo 3, com as opções de desenho. Pode reabri-los a qualquer momento clicando no título.
Os avisos
O separador Avisos, no painel da direita, reúne tudo o que a aplicação corrigiu ou não conseguiu resolver. Vale a pena lê-lo antes de tirar conclusões:
| Aviso | O que aconteceu |
|---|---|
| Aparece mais do que uma vez | O aluno respondeu duas vezes; vale a resposta mais recente. |
| Escolheu-se a si próprio | Auto-escolhas não entram no sociograma. |
| Indicou o mesmo colega duas vezes | Conta só a melhor posição. |
| «X» foi lido como «Y» | Diferença de escrita pequena, corrigida automaticamente. Confirme. |
| Foi escolhido n vezes mas não respondeu | Alguém mencionado por colegas que não preencheu o formulário. |
| Respondeu mas não indicou colegas reconhecidos | Os nomes que escreveu não correspondem a ninguém da turma. |
Usar o sociograma
O que cada marca do desenho quer dizer, e como interrogá-lo.
Ler o desenho
Cada marca gráfica quer sempre dizer a mesma coisa. A cor dos círculos e a cor das linhas são independentes uma da outra, e o critério nunca é indicado por cor — é indicado pelo traço da linha — justamente para não haver confusão.
| Marca | Significado |
|---|---|
| Seta | Vai de quem escolhe para quem foi escolhido. |
| Número no círculo | Total de escolhas recebidas nesse critério. |
| Tamanho do círculo | Proporcional à medida escolhida em «Tamanho dos nós». |
| Cor do círculo | O que estiver em «Cor dos nós»: subgrupo, estatuto, popularidade, género ou cor única. |
| Linha verde | Escolha recíproca: os dois escolheram-se. |
| Linha escura | 1.ª opção. Quanto mais clara e fina, mais abaixo na ordem de preferência. |
| Traço da linha | De que critério é a escolha — só quando está a ver «Todos os critérios». |
| Contorno vermelho tracejado | Aluno que ninguém escolheu. |
| Contorno escuro tracejado | Aluno mencionado que não respondeu ao questionário. |
| Quadrado / círculo | Género, quando essa coluna existe. |
A legenda no canto do desenho explica as linhas, que é o que não se adivinha ao olhar. Clique no título dela para a recolher. A legenda impressa é completa, porque no papel não há menus onde ir confirmar.
Rato e teclado
| Gesto | O que faz |
|---|---|
| Clicar num aluno | Isola as ligações dele — a azul as que fez, a laranja as que recebeu — e abre a ficha no painel da direita. |
| Clicar no fundo | Desfaz a seleção. |
| Arrastar um aluno | Muda-o de sítio. Fica onde o puser, e o cálculo automático deixa de lhe mexer. |
| Arrastar o fundo | Desloca o desenho. |
| Roda do rato | Aproxima e afasta. |
| Passar por cima | Mostra a ficha resumida do aluno. |
O botão Recalcular volta a calcular a disposição de raiz e devolve ao automático os alunos que tenha arrastado. O Ajustar enquadra tudo na área visível.
| Teclas | O que fazem |
|---|---|
| / ou Ctrl/⌘+K | Procurar um aluno. |
| Ctrl/⌘+S | Guardar o projeto. |
| Ctrl/⌘+P | Imprimir. |
| F | Enquadrar o desenho. |
| [ e ] | Recolher os painéis laterais. |
| Esc | Limpar a seleção. |
A caixa de procura, no topo, aceita parte do nome e ignora acentos — «ines» encontra Inês Patrício. Ao escolher, a aplicação centra e seleciona esse aluno. O × da caixa limpa a procura, desfaz a seleção e volta a enquadrar a turma toda.
As opções de desenho
| Opção | Para quê |
|---|---|
| Critério sociométrico | Qual a pergunta em vista. Um sociograma é sempre de um critério; «Todos os critérios» sobrepõe-nos, distinguindo-os pelo traço. |
| Tamanho dos nós | Escolhas recebidas, pontuação ponderada, escolhas recíprocas, ou todos iguais. |
| Cor dos nós | Subgrupo, estatuto sociométrico, popularidade em gradiente, género ou cor única. |
| Mostrar ligações | Todas, só as recíprocas, só 1.ª e 2.ª opção, ou só a 1.ª. Filtrar pelas primeiras opções revela o núcleo das preferências. |
| Destacar reciprocidades | Pinta de verde as escolhas retribuídas. |
| Realçar isolados | Contorno vermelho em quem não recebeu escolhas. |
| Evitar sobreposição | Afasta os nós para os nomes não se taparem. |
| Espaçamento e tamanho da letra | Para caber no ecrã ou no papel. |
O painel da direita
Resumo
Seis indicadores da turma no critério em vista — passe o rato por cima de cada um para ver o que mede. Por baixo, quatro listas clicáveis: os mais escolhidos, quem não recebeu escolhas, os pares recíprocos e os subgrupos coesos. Clicar em qualquer nome seleciona esse aluno no desenho.
Quando há um aluno selecionado, aparece no topo a ficha dele: o estatuto, os totais, quem escolheu e por quem foi escolhido.
Alunos
A tabela completa, ordenável por qualquer coluna. Rec. são as escolhas recebidas, Fez as que fez, Pts a pontuação ponderada e ⇄ as recíprocas. Um asterisco no nome marca quem não respondeu.
Avisos
O que a aplicação corrigiu ou não conseguiu resolver nos dados, com o número ao lado do separador.
As disposições
A posição dos alunos no papel não é neutra: cada disposição responde a uma pergunta diferente.
ForceAtlas2
É a disposição de origem e a que revela melhor a estrutura da turma. Funciona como um sistema de forças: os alunos repelem-se uns aos outros e as escolhas puxam-nos, como molas. O resultado é um equilíbrio em que os grupos de amigos se juntam sozinhos e os alunos periféricos ficam nas margens.
É o mesmo algoritmo do Gephi, no modo LinLog: a atração cresce com o logaritmo da distância em vez de linearmente, o que separa os subgrupos com muito mais nitidez. As escolhas recíprocas puxam com mais força, porque são laços mais fortes.
Fruchterman–Reingold
Outro algoritmo de forças, mais antigo e com atração linear. Distribui os alunos de forma mais uniforme pelo espaço e separa menos os grupos. É útil em turmas pequenas, onde o ForceAtlas2 tende a colar tudo, e para quem prefere um desenho mais espalhado.
Alvo concêntrico
O sociograma clássico, tal como aparece na literatura de sociometria: uma série de anéis em que quanto mais escolhas um aluno recebe, mais perto do centro fica. Os alunos sem escolhas ficam no anel de fora.
Aqui a posição responde a uma pergunta só — quem é mais procurado — e responde-a de imediato, sem ser preciso contar setas. É a disposição mais fácil de explicar a quem nunca viu um sociograma, e a mais indicada para um relatório onde interessa a hierarquia de preferências.
Em troca, perde-se a estrutura: dois alunos lado a lado no mesmo anel podem não ter nada a ver um com o outro.
Grelha
Os alunos alinhados em linhas e colunas, ordenados por subgrupo. Não revela estrutura nenhuma, mas garante que todos os nomes estão legíveis e nenhum aluno fica escondido atrás de outro. Serve para conferir escolha a escolha, para verificar um caso concreto ou para projetar numa reunião.
Qual usar
| A pergunta | A disposição |
|---|---|
| Como é que esta turma está organizada? | ForceAtlas2 |
| Quem são os mais e os menos procurados? | Alvo concêntrico |
| A turma é pequena e o desenho fica apertado | Fruchterman–Reingold |
| Preciso de conferir nome a nome | Grelha |
Vale a pena ver a mesma turma em duas disposições antes de decidir o que concluir: o que uma esconde, a outra costuma mostrar.
As métricas
Como cada número é calculado, e o que se pode — e não se pode — concluir a partir dele.
Escolhas e ponderação
As contagens de base, sempre relativas ao critério que está em vista:
- Escolhas recebidas — quantos colegas escolheram este aluno. É o número que aparece dentro do círculo.
- Escolhas feitas — quantos colegas ele escolheu.
- Escolhas recíprocas — em quantas dessas relações houve escolha dos dois lados.
Nem todas as escolhas valem o mesmo: ser a primeira opção de alguém não é o mesmo que ser a terceira. A pontuação ponderada dá mais peso às primeiras opções. Com três opções:
Com um número diferente de opções a escala ajusta-se: a primeira vale tantos pontos quantas as opções pedidas, e desce de um em um. Quando escolhe «Todos os critérios», os pontos dos vários critérios somam-se.
Popularidade
As escolhas recebidas em bruto não são comparáveis entre turmas de tamanhos diferentes: cinco escolhas numa turma de 12 valem muito mais do que numa turma de 30. O índice de popularidade converte-as numa proporção.
O denominador merece atenção. Não é o total de alunos do desenho, mas o número de alunos que efetivamente respondeu ao questionário, menos o próprio (ninguém se escolhe a si mesmo). Quem não respondeu não escolheu ninguém, e contá-lo baixaria artificialmente a popularidade de toda a turma.
Exemplo
Numa turma de 25 alunos em que 19 responderam, um aluno com 8 escolhas recebidas tem popularidade 8 ÷ 18 = 44% — 18 e não 24, porque só 18 colegas estavam em condições de o escolher. Para um aluno que não respondeu mas foi escolhido, o denominador é 19: todos os respondentes o podiam ter escolhido.
Estatuto sociométrico
A classificação compara cada aluno com a média da sua turma, e não com um valor fixo. Calcula-se a média e o desvio-padrão das escolhas recebidas e mede-se a que distância da média cada aluno está — o chamado valor z.
| Estatuto | Critério | Leitura |
|---|---|---|
| Estrela | z ≥ 1,25 | Muito acima da média da turma. Costuma haver um ou dois. |
| Popular | z > 0,25 | Acima da média. |
| Médio | recebeu escolhas, z ≤ 0,25 | Na média ou perto dela. |
| Ignorado | 0 recebidas, mas escolheu | Participa mas não é escolhido por ninguém. Merece atenção. |
| Isolado | 0 recebidas e 0 feitas | Fora da rede de relações neste critério. |
Reciprocidade
Uma escolha é recíproca quando os dois alunos se escolhem um ao outro. São as ligações mais sólidas do desenho, e por isso aparecem a verde e mais grossas.
É a percentagem de escolhas que foram retribuídas. Uma turma com reciprocidade alta tem relações assentes; uma com reciprocidade baixa tem muitas admirações não correspondidas, o que costuma acompanhar grupos ainda a formar-se ou muito hierárquicos.
A lista Pares recíprocos ordena-os por força — o par em que ambos se escolheram em primeiro lugar aparece no topo.
Densidade
Mede quanta da rede possível está efetivamente preenchida. As escolhas possíveis contam apenas as que partem de quem respondeu: cada respondente poderia, em teoria, escolher qualquer um dos outros alunos.
Subgrupos e comunidades
A aplicação identifica grupos de duas maneiras diferentes, e convém não as confundir.
Subgrupos coesos
Conjuntos de três ou mais alunos em que todos se escolhem entre si, nas duas direções. É um critério exigente e literal: em teoria de grafos chamam-se cliques no grafo das escolhas mútuas. Quando a lista mostra «Leonor · Francisca · Ana», significa que cada um dos três escolheu os outros dois e foi escolhido por eles.
Comunidades (a cor dos nós)
A cor «Subgrupo» vem de um cálculo diferente, por modularidade, com o algoritmo de Louvain — o mesmo que o Gephi usa. Ele procura a divisão da turma que maximiza as ligações dentro de cada grupo em relação às que existiriam por acaso. Ao contrário dos subgrupos coesos, aqui todos os alunos ficam atribuídos a algum grupo, mesmo os que estão na fronteira entre dois.
Cautelas na leitura
- Um sociograma é uma fotografia, não um filme. Mostra as preferências declaradas num dia. Repita a recolha mais tarde no ano para ver o que mudou.
- O critério muda tudo. Um aluno pode ser estrela para trabalhar e passar despercebido para conviver. Compare sempre os critérios antes de formar uma opinião sobre alguém.
- Escolhas não são amizades. Um aluno pode ser escolhido por ser bom a matemática e não por ser amigo.
- Atenção às respostas em falta. Se faltarem muitos formulários, o desenho fica incompleto de maneiras que não são visíveis: um aluno pode parecer isolado só porque quem o escolheria não respondeu.
- Não mostre o sociograma aos alunos, nem os classifique em voz alta a partir dele. Serve para o professor decidir grupos de trabalho, lugares na sala e a quem convém dar atenção.
Guardar e imprimir
Levar o trabalho para fora da aplicação.
O projeto .nni
O botão Guardar na barra de cima, ou Ctrl/⌘+S,
grava um ficheiro .nni com tudo o que é preciso para retomar o
trabalho: os dados da folha, a correspondência de colunas, os nomes dos
critérios, as opções de desenho e a posição exata de cada aluno, incluindo
os que arrastou à mão. Por dentro é JSON, portanto legível num editor de
texto.
Para reabrir, é o caminho de qualquer outro ficheiro: Importar dados → Ficheiro. O sociograma volta tal como estava, sem recalcular a disposição.
Imprimir
O botão Imprimir monta um documento A4, na horizontal ou na vertical, com até três páginas:
- O sociograma, com legenda completa e uma nota de leitura.
- A tabela de métricas por aluno.
- A leitura sociométrica: pares recíprocos, subgrupos coesos, mais escolhidos, alunos sem escolhas, escolhas não correspondidas e as notas sobre os dados.
Cada bloco pode ser desligado antes de imprimir. Para PDF, escolha Guardar como PDF na caixa de impressão do sistema.
Exportar
| Formato | Serve para |
|---|---|
| PNG / SVG | Inserir num relatório. O SVG é vetorial: amplia sem perder nitidez. |
| CSV de métricas | Tratar os índices numa folha de cálculo. |
| CSV da matriz | A matriz sociométrica clássica: quem escolhe quem. |
| GEXF | Abrir o mesmo grafo no Gephi. |
Privacidade
Tudo corre no computador do professor. O servidor local só faz uma coisa com a rede: pedir ao Google o conteúdo da folha quando carrega em Importar. Não há base de dados, não há contas, não há envio de dados para lado nenhum.
Ainda assim, lembre-se de que um sociograma contém dados pessoais de menores e revela relações sociais. Guarde os ficheiros exportados com o mesmo cuidado das pautas, e não os deixe num computador partilhado.